Academia da Essência Humana | Lição 3 | HÁ COISAS QUE CARREGAS QUE NÃO SÃO BEM TUAS

Academia da Essência Humana | Lição 3
HÁ COISAS QUE CARREGAS QUE NÃO SÃO BEM TUAS
Olá! Olá! Sejam muito bem-vindos!
A dimensão experiencial do nosso corpo contém uma miríade de riquezas. Basta uma pequena "colherada" neste caldo experiencial para se desvelar um mundo de fenómenos significativos, inesperados e plenos de proficuidade. Todavia muito depende da amplitude do nosso foco e da qualidade da nossa presença, já que a percepção que aplicamos às coisas acaba por desempenhar um papel fundamental no tipo de frutos que depois podemos colher delas ou com elas.
Um dos elementos mais importantes do estado de presença que é apaixonadamente advogado por quem pratica Focusing, é aquilo a que chamamos de o "não-saber". Não é fingir que não sabemos, é não termos outro remédio senão não sabermos mesmo. A experienciação humana é algo vivo e que acontece em directo no nosso corpo, por isso não há meio de a controlar, antecipar ou decidir sobre o seu desígnio ou destino. Quanto muito, se assim o decidirmos, podemos aprender a participar e co-criar com esse processo.
A vivência de hoje reflecte um pouco esta imprevisibilidade natural dos fenómenos e de como ela é uma condição essencial para algo se poder desvelar, muitas vezes pela primeira vez. E mais, para ajudar a esse desvelamento, essa incerteza inicial pode ser vista como uma abertura para o mistério da coisa em si, em vez de estarmos envoltos numa inquietante angustia que resulta do esforço de estar a tentar determinar o que poderá vir a acontecer. Não há que recear, pois nas palavras de Ann Weiser Cornell a verdade é que cá dentro não há inimigos, apenas partes que não foram ainda reconhecidas.
Tudo começou quando a pessoa que fez a sessão de Focusing quis explorar as raízes que alimentavam uma certa tendência para procrastinar sonhos pessoais mas também a dificuldade que sentia em garantir uma prosperidade financeira que lhe permitisse estar minimamente tranquila e feliz com a vida. Para ela, o todo da sua situação podia-se resumir a uma espécie de sensação de fundo de que havia algo que estava em falta na sua vida.
Embora tenhamos sempre algo a dizer ou a fazer em relação às sensações que nos permeiam, a verdade é que muitas delas tem raízes que vem de há muito tempo atrás, muito antes de virmos parar a este mundo. Isto pode não só ser revelador como libertador, pois permite abrir a consciência para o que se passou na história do nosso sistema familiar, e, consequentemente, ocorrer a possibilidade de se descondicionar certos padrões daí resultantes.
Esta é uma das principais razões que faz com que a terapia em geral e a psicoterapia em particular sejam sagradas e benéficas, pois ao trabalharem-se estes processos estamos não só a evitar repetir padrões ancestrais que podem estar a sabotar a plenitude da nossa vida, como a evitar passar "entulho emocional" para cima de quem está ao nosso redor. Há mesmo quem diga que a um certo nível poderemos mesmo estar a limpar os nossos genes de certos registos.
Lição 3 | Há coisas que carregas que não são bem tuas
Nunca consegui enxergar porque tenho tido tantas dificuldades financeiras nos últimos anos. Sinto como se fosse totalmente incapaz de me providenciar a mim própria. No ano passado tive mesmo na "corda bamba" e se não fosse uma prenda abençoada que uma amiga de família nos deixou, eu não sei onde estaria hoje. Por isso este é um assunto que merece muito a pena ser explorado na nossa parceria.
Vou pausar, abrir espaço cá dentro e sentir o que o meu corpo tem para me dizer sobre toda esta situação de não saber providenciar-me a mim própria...
A primeira coisa que me aparece é esta repulsa que tenho perante a minha dificuldade em sustentar-me...não gosto nada disto...sinto-me envergonhada e frustrada por ter esta dificuldade. Mas ok, a ideia aqui é estabelecer uma relação com os meus fenómenos internos em vez de me defender deles, atacá-los ou querer mudá-los. Vou tentar ser mais aberta e compassiva com isto. Ainda bem que estamos em parceria porque senão, eu entrava naquele ciclo automático de reactividade que certamente não se iria dar bem com a coisa.

Bolas! É mesmo difícil, mas tudo bem, vou continuar a olhar para isto. Está-me a aparecer uma imagem do resto de um tronco de uma árvore, uma árvore de um porte grande mas que foi cortada quase pela base e agora é como se me desse pela barriga. O tronco está oco e consigo espreitar lá para dentro...e....está um pouco escuro e meio húmido.
Estranho, é como se esta imagem da árvore fizesse ligação com a minha barriga, como se sentisse algo cá dentro e cá para baixo. Parece estar ligado à comida ou ao comer qualquer coisa. Mas não consigo entender bem isto. E agora também está a aparecer algo branco muito polido, muito claro, com uma cor branco-pérola. Que raio! Isto parece uma espécie de estrutura arquitectónica futurista que está incrustada numa grande falésia e que desce até lá abaixo.
Parece que as imagens pararam, mas estou a começar a sentir algo, um medo na zona da barriga, um receio que está a vir ao meu encontro. E aparece-me aqui a imagem nítida de uma colher. Credo! Já percebi! É como se eu fosse um bebé que está a ser alimentado por esta colher mas em vez de me estarem a dar comida estão-me a dar medo! É como se tivesse a comer e a engolir medo para dentro de mim. Espera, isto é intenso demais e tenho de respirar um pouco para manter um pequeno espaço interno em relação a isto. Deixa-me mexer um pouco, talvez seja bom dar uns passos na direcção deste lado da sala. Óptimo! Uff! Que alívio, estou bem melhor assim.
Esta coisa de nos podermos mexer se tivermos a processar algo emocionalmente intenso é genial. É que a mente por vezes aprende que perante coisas assustadoras ou traumatizantes nós temos de reagir rápido e muitas vezes bloqueamos e repetimos sempre a mesma resposta que foi aprendida há muito, muito tempo atrás e que, quer a mal quer a bem, nos ajudou a ultrapassar a situação. E relembrar a mente através do movimento do corpo e da ligação com o ambiente envolvente que há outras possibilidades e que podemos encontrar um espaço mais seguro, ajuda-a de facto a ampliar as respostas e a ter mais calma, mais espaço para processar tudo. O Whole-Body Focusing e a Experienciação Somática são áreas terapêuticas maravilhosas para isto. Mas é claro, se eu estiver à frente de um leão esfomeado o melhor é seguir o impulso de fugir sem me por com muitas esquisitices.
Então voltando à cena em que me estava a ver a ser alimentada pelo medo. Agora já se faz mais luz pois aquilo que se apresentou ao princípio como uma estrutura arquitectónica futurista toda polidinha, tinha afinal a ver com esta colher. E com este medo, como se me tivesse sido passado pela família, pela minha mãe, pelo meu pai, as minhas irmãs e todos os que vieram antes de mim.
Mas sinto-me tão culpada a dizer isto. Deixa-me ambivalente porque sempre fui bem cuidada pela minha família e sinto-me muito amada por ela, mas o meu corpo está a trazer-me um outro lado da história. E um lado da história que ninguém vai entender ou corroborar. Apesar de ser difícil encaixar a ideia, a verdade é que trago em mim a presença de um medo existencial meio silencioso, meio disfarçado e que parece ter sido passado pelo meio onde nasci.
Espera...soa a incompleto esta coisa que disse sobre o meio em que nasci...há algo aqui que precisa de ser mais bem definido. Já percebi! Isto não está só relacionado com a minha família mas com toda uma comunidade, uma cultura e uma era. Uma cultura que tem a cultura de cultivar o medo e de o oferecer como alimento, sem ter consciência real do que faz. Contamina-nos com a ideia de que viver é perigoso e de que é mais seguro comportarmos-nos bem e aprendermos a respeitar as regras do mundo dos homens. Cria um substrato para os nosso actos que é fértil em receios sobre o que os outros vão pensar, em regras e em preocupações pré-determinadas sobre a melhor conduta a se ter, sobre qual o melhor caminho ou quais as perigosas consequências de se fazer algo que nunca ninguém fez até agora. E se não adoptares estes medos e enveredares por outros caminhos então serás exilado, serás excomungado, deserdado e não sobreviverás ou algo assim. Como é que a espontaneidade fluída da vida pode brotar se a sufocamos e enfardamos com estes medos?!
Em bebés é bem possível que tenhamos todos absorvido esta trampa como esponjas! É uma tomada de consciência sofrida mas estou tão grata ao mesmo tempo por me aperceber disto, por isto ter vindo à tona. Como se agora ganhasse mais compreensão e mais compaixão por mim, a minha família e o mundo. Há também algo aqui em mim a mudar. É como se sentisse o meu corpo a fazer-me um convite. O de tentar imaginar o que seria viver a minha vida a partir de agora sem ter este medo. Como se ele me estivesse a apontar para um novo projecto do meu Ser, o de viver livre deste medo! Chegar a um ponto em que todos os meus movimentos, palavras, decisões, posturas, respirações, formas de estar com as pessoas e tudo o mais tivessem absolutamente livres deste medo. Como seria viver assim...? Como me iria sentir..?
E pronto...lá me vem esta sensibilidade ao de cima, estas ondas e lágrimas de alegria maravilhada, como uma criança dentro de um sonho a viver aquilo que mais deseja. Até me está a passar agora na cabeça aquela música dos enigma, o Return to Innocence, lembras-te? Será que é possível isto? Estou agora a olhar para a janela e a sentir a imensidão das coisas e quase que cá dentro há uma consciência profunda a questionar-me se eu quero isto? Se eu quero ter uma vida assim com esta sensação, sem medo, livre. Não me pergunta ou diz se é possível ou não, ela só quer sabe se eu quero mesmo isso. Provoca-me e desencobre essa minha vontade. Sim quero! É claro que quero! Neste momento é o que eu mais quero no mundo! Viver uma vida sem medo, num lugar sem medo dentro e fora de mim.
Vem tanta energia daqui, como se isto fosse um renascimento. Todo um pulsar de energia da alma sem constrições. Só me apetece abrir os braços como um pássaro e afastar para bem longe daqui estes limites todos.

Sei agora de onde veio este medo e não me posso libertar assim de qualquer maneira dele. Ele faz parte de quem eu sou, de onde eu venho e da árvore a que pertenço. Mas eu não tenho que o carregar pois isto não é bem meu. Não tenho de o alimentar. Eu não preciso de repetir os mesmos padrões, as mesmas histórias. Vou respeitar a história deste medo, honrá-la e ter consciência da linha familiar que atravessou e de onde veio, mas agora é a minha hora, bolas!
E esta é a minha vida. E até agora ninguém antes falou disto assim, ninguém antes olhou assim para as coisas. E isto faz-me agora ter uma responsabilidade para com isso. Eu agora posso construir um caminho novo sem medo. Posso e quero! Plantar a minha alma nesta vida sem o adubo do medo. Uma nova agricultura da alma, uma almacultura!
João da Fonseca

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