Academia da Essência Humana | Lição 4 | SUBTILEZAS MARAVILHOSAS

Academia da Essência Humana | Lição 4

SUBTILEZAS MARAVILHOSAS

Olá, Olá! Sejam Bem-vindos!
O canto melodioso dos pássaros, a imponência das árvores, uma poça de agua lamaçenta, as dançantes cores do por-do-sol graduando os seus reflexos no céu, uma brisa fresca que nos passa pela pele ou alguém que subitamente se atravessa no nosso caminho sem se dar conta que ali estamos, são alguns dos exemplos que demonstram como todos somos inevitavelmente afectos ao ambiente que nos envolve.
É dentro de ambientes que nascemos, crescemos e vivemos, desde o útero até para além da estratosfera onde navegam os astronautas. Sejam estes naturais ou artificiais, a verdade é que se desenvolve uma relação vital e sensível que atinge níveis tão amplos e subtis que passam despercebidos para a maioria das pessoas. Em verdade, não basta só compreender a evidência factual da nossa dependência com o ambiente, é também necessário senti-la no âmago do nosso ser, aí nesse lugar onde as células reconhecem, vibram e celebram o facto de sermos agraciados por tal privilégio, oferenda e sustento. É assim ganhamos consciência da importância e do valor de tudo o que nos envolve.

Sim, nesta relação o ser humano é um grande privilegiado pois para além de à semelhança dos outros seres vivos deste Planeta Terra, receber muito mais do que aquilo que dá de volta, é ele que sustem a consciência sobre a pegada que a sua existência vai deixando neste ambiente, seja esta harmoniosa ou disruptiva. E pese embora o nosso cérebro esteja biologicamente e evolucionariamente desenvolvido para continuamente se conectar com o seu ambiente, o desenfreado desenvolvimento tecnológico da nossa era parece estar a dissolver esta sensibilidade orgânica e intuitiva, tornando-nos mais dependentes de pequenas e grandes geringonças que nos dão a ilusão de interagirem connosco.
Nesse sentido, a vivência de Focusing de hoje ilustra como é possível aceder e estimular esta sensibilidade já que a mesma foi realizada numa varanda, ao invés de no interior de uma casa. Isto permitiu estar numa espécie de zona fronteiriça que promoveu um maior contacto e exposição aos vários elementos que se encontravam no exterior como a luminosidade, o vento ou o canto dos pássaros. O que daí resultou é o que se irá apresentar de seguida.
Lição 4 | Subtilezas Maravilhosas
Hoje não me apetece trazer nada de especial, nenhum tema nem nada para processar. Vou só deixar-me estar aqui e ver o que aparece cá dentro. Vou-me deixar ficar num longo e prazeiroso silêncio. Isto sabe tão bem. Está um dia tão lindo e sinto-me a ser atravessada por um estado de tranquilidade ao sentir os sons do ambiente e principalmente dos pássaros que estão a cantar aqui à nossa volta. Também sinto a luz do sol a aquecer a minha pele, uma sensação de espaço imenso e a leveza de tudo isto.
Há aqui uma beleza imensa no canto deste pássaro que me puxa a atenção. Como se o seu canto fosse de felicidade e não de alarme ou de aviso. Como se ele tivesse contente, seguro, e a celebrar este bom dia. Mas bom, estarei a falar do pássaro ou do que sinto em mim..? Na verdade esta questão nem é prioritária, interessa-me sim manter e viver esta sensação, a energia disto.
Que coisa esta agora! Estes homens aqui ao lado a fazerem obras e este barulho horripilante de marteladas, a fecharem e abrirem as janelas com força e até estes carros que passam e apitam lá em baixo na rua. É incrível como o meu corpo reage a isto como que a contorcer-se, como se estivesse a proteger de algo que não é harmonioso nem respeitador. Isto é tão desarmonioso e desarticulado deste sentimento de envolvência que estava a ter.
Sons e acções sem qualquer consciência ou consideração pelo que está à volta. Até os pássaros pararam de cantar. Ainda bem que o sol está longe senão perdia a luz. Mas há mais...no exacto momento que disse que estava zangada senti algo a mudar, a ir um pouco mais além do que a zanga. Percebo agora como ela está ligada a um necessidade profunda de honrar e buscar harmonia entre aquilo que são as ambições do homem e o equilíbrio com o seu ambiente, inclusivamente nos níveis mais subtis. Esse homem que está para aí a martelar na janela sem mais nem menos, focado apenas no seu objectivo, devia fazer uma pausa e tentar entrar na sinfonia das coisas ou algo desse estilo.Deixa-me ver que mais há nesta sensação de contenção no meu corpo...acho que tem a ver com os sons e os afazeres dos homens e das cidades, todos tem de fazer o seu trabalho é claro, mas há algo em mim zangado, como que a protestar contra isso. É como se o meu espírito estivesse zangado por todo o desrespeito, pela ruptura e pela desarmonia que se causa.
Embora isto apareça primeiro como uma zanga, o que está por detrás é a defesa de um valor muito sublime, o valor de criar uma vinculação sensível e respeitosa com o que está à volta de nós. É quase como que um convite para entrar numa orquestra ou numa sinfonia, mas para isso tens de te integrar no que já está a acontecer em vez de fazeres algo completamente desconectado e desenquadrado.
O ser humano pertence à Terra e a integridade dos seus sistemas fisiológicos e psicológicos depende da consciência de manter uma relação construtiva e harmoniosa com ela. A maneira como operamos como sociedade e indivíduos está a degradar essa relação de tal maneira que o meu espírito se rebela furiosamente. Para sermos saudáveis no corpo e na mente precisamos de comer comida de qualidade e agua limpa, sem isso o corpo degenera, a mente também e passamos a actuar de forma doentia, alienada e estúpida. Ainda me revolta mais a nossa complacência com organizações que visam o lucro, criam alimentos geneticamente alterados, abusam de pesticidas, violam a terra na perfuração para ter petróleo e gás natural e a disparidade económica que faz uma boa parte do mundo morrer à fome e não ter condições mínimas de vida.
Tudo isto destrói esta relação sagrada com a Terra. Por deixarmos a sociedade operar desta maneira estamos a desconectarmos-nos de nós próprios, dos outros e do Planeta. Destruímos a relação com a própria essência da vida humana que é a sensação de sermos amados. E vemos isto no aumento brutal de divórcios, na depressão de adultos e crianças, suicídio na adolescência e a dissolução do sentimento de comunhão entre as pessoas em geral.
Esta crescente desconexão do sentimento de sermos amados perpetua todo o tipo de problemas pessoais e sociais através de um ciclo vicioso. Mas este é um problema que existe dentro de cada um de nós, que nasce da degradação da relação harmoniosa com a inteligência que nos sustenta. Isto está mesmo a apontar-me para um cuidado e um zelo com o que há ao redor mas também dentro de mim, pois muitas vezes ponho-me a ocupar mentalmente com coisas sem escutar o que sinto e isso até pode soar como marteladas para os lados mais sensíveis da minha natureza humana. É essa a lição aqui.
É como se me tivesse a ser pedido para que os meus gestos, as minhas palavras, as minhas coisas tentassem estar mais em harmonia, mais em sintonia com o momento e o espírito envolvente em vez de serem só acções rotineiras ou algo parecido. Para buscar sempre esta experiência, não me esquecer dela e deste vinculo maior que já está predisposto em mim.
Acabei de dizer isto e sinto que agora preciso de colocar a minha mão no coração. Estou a aperceber-me de que neste momento estou a receber um prenda enorme desta tomada de consciência. A de reconhecer cá dentro que estou a ser banhada e limpa na alma para me aperceber de como todos nós já estamos conectados com tudo isto. Não precisamos de fazer nada porque a conexão já existe. Está lá e sempre lá esteve.
Lá está o meu super-ego ou sei lá o que chamam a isso, a fazer das suas. Por eu estar a dizer que não é preciso fazer nada surge-me logo um discurso interno a dizer que sou preguiçosa. E também a dizer que sou egoísta pois no final de contas só recebo e nada dou em troca. Quase que me podia sentir mal com isto não fosse eu já ter aprendido que não me devo embrenhar nas coisas ou identificar muito com elas.
O que tenho de fazer é manter uma distância suficiente para me relacionar com elas em vez de me fundir. Na fusão não há relação pois uma coisa não se distingue da outra. Que curioso! Por vezes estes ataques críticos aparecem antes de uma revelação se dar, como se receassem a vinda de algo novo ou diferente. O lado crítico quer sempre proteger-nos do que não conhecemos, prende-se às experiências passadas para reduzir a imprevisibilidade das coisas, mas nem tudo o que é imprevisível é mau. Senão, o que seria de nós sem a espontaneidade por exemplo?
É que agora vejo que ao receber estas sensações e sintonias com o ambiente eu estou também a dar algo em troca, eu estou a vibrar com isto. Não é um dar intencional mas ao estar genuinamente aberta para receber isso a verdade é que eu acabo por dar algo de volta tal como as plantas que recebem a luz e devolvem oxigénio ou os pássaros que cantam porque um dia bom os visita. É natural, é algo que lhes sai. E é tão bom perceber e sentir isso. Se calhar a ordem certa é sentir e depois perceber.
Há tanto trabalho a fazer a partir daqui mas tenho mesmo de trazer esta lição para a minha vida. Não sou religiosa nem me considero espiritual, mas isto dá-me mesmo a sensação de ser uma espécie de oração que se consagra e celebra em gratidão, da forma mais natural que existe. Como aquela passagem do filme "Zorba o grego", em que alguém diz "Não te sei explicar isto em palavras senhor, mas eu tenho de o dançar".
Há tanta, tanta subtileza maravilhosa neste mundo, tantas maravilhosas subtilezas! Como seria bom se todos a pudessem ver... 
João da Fonseca

Comentários

Mensagens populares